14 julho 2008

Prece de um cão abandonado!



Sabe, senhor, ainda não entendi, viemos à praça, pensei ser um passeio, estranhei, ele não tinha esse hábito, mas fui feliz.
Lá chegando, me deu as costas, entrou no carro e nem disse adeus. Olhei para os lados, nem sabia o que fazer. Ainda tentei segui-lo, quase fui atropelado.
Que teria feito eu de tão mau? À noite, quando ele chegava, abanava o rabo, feliz, mesmo que ele nunca viesse ao quintal me ver.Às vezes, eu latia, mas tinha estranhos no portão, não podia deixá-los entrar sem avisar meu dono.
Quem sabe foi a minha dona quem mandou, devia estar lhe dando trabalho.
Mas não as crianças, elas me adoravam. Como sinto saudades!!! Puxavam-me a calda, às vezes, eu ficava uma fera, mas logo éramos amigos novamente.
Creio que elas nem sabem, devem ter dito que fugi...
Estou faminto, só bebo água suja, meus pêlos caíram quase todos, nossa, como estou magro!!!
Sabe Pai, aqui nesse canto que arrumei para passar a noite, faz muito frio, o chão está molhado.
Creio que, hoje, vou me encontrar contigo, aí no céu meu sofrimento vai terminar, mesmo em espírito vou ter permissão para ver as crianças.
Peço-vos, então, não mais por mim, mas pelos meus irmãozinhos:
Mande-lhes pessoas que deles tenha compaixão, como eu, sozinhos não viverão mais que alguns meses na terra do homem.
Amenize-lhes o frio, igual ao que agora sinto, com o calor de atos de pessoas abençoadas.
Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.Mata-lhes a sede, com água pura de seus ensinamentos transmitidos ao homem.
Elimine a dor das doenças, extirpando a ignorância da terra.
Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos apredoados como religiosos, laboratórios e tudo mais.
Tirando das mãos humanas o gosto pelo sangue.
Ampare as cachorrinhas prenhas que verão suas crias morrerem de fome, frio e pestes sem nada poderem fazer.
Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados, pois, entre todos os males, o que mais doeu foi esse.
Receba, Pai, nesta noite gélida, a minha alma, pois não mais será meu o sofrimento, mas dos que ficarem e por eles vos peço.

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