01 setembro 2010

Hoje eu queria abraçar meu pai

Hoje eu queria abraçar meu pai como sempre fazia. Levantar, sem me importar de ser domingo, às seis da manhã pra ir à Missa com ele só porque era Dia dos Pais e eu pediria a Deus que o protegesse.

Hoje eu queria abraçar meu pai e vê-lo enchendo a cara de espuma para parecer o Papai Noel e me fazer rir. Queria sentir o cheirinho do Leite de Rosas que ele colocava quando acabava de se barbear. Queria espremer seus cravinhos e cortar suas unhas com a devoção que eu sempre fazia. Respeitaria sua única vaidade sem julgá-lo ou condená-lo só pra ele sentir-se seguro e ainda assim daria pitacos nas suas roupas antes de sairmos.

Hoje eu queria abraçar meu pai na cozinha enquanto ele fazia o café mais gostoso e cheiroso do mundo. Queria discutir as notícias da manhã do radinho de pilha, mesmo que o rádio estivesse fora de sintonia. Queria sentar à mesa com ele para vê-lo tomar seu café da manhã com a calma de um monge, e roubar uma colherada do seu prato de mingau.

Hoje eu queria abraçar meu pai e varrer as folhas do quintal de casa com ele. Queria passear na feira, mesmo sabendo que ele me traria os morangos que eu gosto. Não brigaria com ele por causa do colesterol a cada vez que resolvesse preparar uma rabada ou uma feijoada.

Hoje eu queria abraçar meu pai na hora que o Vasco fizesse um gol, mesmo sabendo que ele não conseguiria nem gritar de tanta emoção. Não implicaria com uma televisão e dois rádios ligados ao mesmo tempo, tampouco com a quantidade de reprises, videotapes e debates sobre o mesmo gol. Levaria sua cervejinha para que ele não perdesse nenhum lance, e me assustaria sempre que o visse chutando o ar como se estivesse em campo.

Hoje eu queria abraçar meu pai enquanto ele cantasse "Naquela mesa" imitando o Nelson Gonçalves ou quando ele inventasse as letras de músicas que ele não sabia. Ajudaria a fazer suas palavras cruzadas e a recortar sua tirinha de quadrinhos favorita. Fingiria que não via ele roubando no jogo de buraco como se fosse uma criança levada.

Hoje eu queria abraçar meu pai enquanto ele contasse suas piadas repetidas e as histórias que inventava só pra me fazer rir. Queria que ele lesse todas as coisas que escrevo e gostasse de todas elas, e que ficasse orgulhoso de mim pelas coisas que faço.

Hoje eu queria abraçar meu pai e agradecê-lo por ter sido meu companheiro durante o tempo que estivemos juntos, dizer a ele o quanto sinto sua falta e sua presença ao mesmo tempo. Dizer o quanto ele me ensinou a servir sorrindo e a compartilhar sem cobranças. Hoje eu queria falar tanta coisa, mas ficaria feliz em apenas abraçar meu pai.



Claro que meu pai não fazia exatamente essas coisas, mas achei o texto tão lindo, escrito com tanto amor, que resolvi trazê-lo para o blog.

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