02 março 2011

E a morfina para as vacas e porcos?

"A engenharia genética em animais de corte não é o melhor que podemos fazer - é o mínimo."


Humanos que recebem morfina ou sofrem mutilação de uma parte específica do cérebro - o cortéx - dizem que ainda sentem dor, mas que não se importam mais com ela. 

Atualmente, milhões de animais são obrigados a sofrer para satisfazer nossa procura por carne. E, dado que as práticas das fazendas industriais também são responsáveis por problemas ambientais - como a emissão de quase metade do metano do mundo - além dos riscos para a saúde associados ao confinamento de grande número de animais em um espaço pequeno, acredito que a melhor solução é eliminar a necessidade das fazendas industriais reduzindo o consumo de carne.

Mas não é tão simples assim. É difícil acabar com velhos hábitos. A psicologia humana e a cultura moderna tornam extremamente difícil que as pessoas deixem de comer carne. Na verdade, o consumo de carne produzida em fazendas industriais aumentou dramaticamente em todo o mundo nos últimos 20 anos. Como não há nenhuma indicação que as pessoas vão desistir de sua preferência por carne barata no curto prazo, temos que encontrar outra solução. Uma alternativa tecnicamente possível é manipular geneticamente animais criados em fazendas industriais para que sofram menos. Como isso reduziria o sofrimento de milhões de animais durante anos, creio que temos uma obrigação moral de fazê-lo.

Há algo, porém, que precisa ficar claro. Não penso que nossa capacidade de separar a dor do sofrimento diminua a necessidade de nos livrarmos das fazendas industriais com base em considerações de saúde e meio ambiente. E é justo dizer que nem todo sofrimento desses lugares é resultado da dor - depressão e angústia também são fatores prováveis.

Mas cabe um pouco de realismo no caso -  as pessoas demoram para abrir mão de suas preferências pelo bem maior da sociedade. Como as fazendas industriais continuarão a existir por muitos anos, é realmente humanitário que continuemos a infligir tanto sofrimento a milhões de animais sensíveis quando poderíamos evitar fazê-lo sem praticamente nenhum custo? Minha resposta é não. A engenharia genética dos animais de corte não é o melhor que podemos fazer - é o mínimo que devemos fazer. Considerando que o status quo permite que milhões de animais sofram todo ano, é melhor do que não fazer nada.

Adam Shriver -  filósofo na Washington University, em St Louis, com interesse especial em ética e psicologia moral.

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